Tomar Parte do Problema
PARTE 1: REFLEXÃO INDIVIDUAL Apresentação do exercício: Duração: 35 min. Nas rodas anteriores, reconhecemos através da nossa interdependência que as pessoas com as quais entramos em conflitos estão ligadas a nós. Agora, vamos pensar em como podemos tomar parte nos problemas que nos afetam, assumindo o nosso poder de ação para a transformação social. A …
Sobre esta Atividade Principal
PARTE 1: REFLEXÃO INDIVIDUAL
Apresentação do exercício:
Duração: 35 min.
Nas rodas anteriores, reconhecemos através da nossa interdependência que as pessoas com as quais entramos em conflitos estão ligadas a nós. Agora, vamos pensar em como podemos tomar parte nos problemas que nos afetam, assumindo o nosso poder de ação para a transformação social. A consciência da interdependência ajuda a resolver os conflitos, que surgem quando há uma deconexão profunda entre as partes. Mas, podemos dar um passo a mais e reconhecer a nossa corresponsabilidade para superar os problemas que deram origem ao conflito.
Na CNV são sugeridas várias “regrinhas” para tentarmos manifestar um tipo de vulnerabilidade e reconhecimento do poder das pessoas conosco nas situações. Por exemplo, tentamos observar (sem avaliar), compartilhar nossos sentimentos (sem culpar), relacioná-los às nossas necessidades (sem confundi-las com estratégias) e fazer pedidos claros (sem impor). Mas, quando focamos nas regras, podemos não estar conscientes do tipo de pensamento que precisamos ter em relação as pessoas e esse exercício ajuda muito a entendermos que: viver a CNV é estar com o outro (no problema, no conflito, na restauração e nas soluções).
Para exercitar a consciência de que estamos com o outro, precisamos pensar em como fazemos parte do problema.
Exemplos de transformação da linguagem:
Em vez de dizermos:
“Minha necessidade de respeito não é atendida.”
(que pode subentender que o outro não está nos respeitando)
Podemos dizer:
“Reconheço que ainda não encontrei uma forma de te ajudar a ter mais clareza sobre como desejo que você aja e fale comigo para eu saber que estou sendo respeitado na relação.”
No segundo caso, reconhecemos que, se desejamos respeito, precisamos auxiliar o outro a nos respeitar, indicando como queremos que ele interaja conosco.
Outro exemplo: Quando entendemos que a pessoa está desconfiada e agindo “na defensiva conosco”, por mais que possamos achar injusto, precisamos nos perguntar:
“De que forma eu consigo deixar mais claro para o outro que eu me importo com ele e que minhas atitudes também levarão em consideração suas necessidades.”
Ou ainda: Se achar que a pessoa está escondendo algo de mim, posso me perguntar:
“Como posso ajudar essa pessoa a perceber que ela estará segura se me falar a verdade e que eu não irei deixar de valorizá-la se ela for verdadeira comigo?”
É claro que esse exercício também irá nos convidar a identificar quais são nossos limites na capacidade de dar suporte ao outro para que ele seja melhor comigo. Será que realmente conseguirei acolher suas falhas? (Acolho as minhas?) Será que realmente estou considerando suas necessidades? (Concilio com as minhas?) Será que o respeito também?
Por isso, esse exercício pode ser desafiador. Mas, se conseguirmos fazê-lo poderemos compreender melhor as pessoas, reconhecer nossos limites e ter mais humildade nas relações.
Para isso, seguiremos 3 passos (±10 minutos):
- Identificar uma situação conflituosa com outra pessoa. (Nesse caso, o conflito é entendido não apenas como uma situação de discussão, briga, etc, mas como um movimento interno de insatisfação perante alguma situação, mesmo que você não tenha tomado parte diretamente nela.)
- O que eu e o outro queremos cuidar nessa situação. (Qual necessidade estou tentando atender nessa situação? E o outro? Queremos nos conectar com respeito em relação às nossas falhas ou as situações em que não conseguimos ser perfeitos. Por isso, é importante essa etapa para nosso autocuidado e não nos culpabilizarmos na tentativa de compreender o outro.)
- De que forma eu participo dessa situação?
Por exemplo:
– De que forma estou criando obstáculos?
– O que pode estar faltando na minha atitude para ela agir melhor?
– Que outra prioridade a pessoa está tendo e eu posso não estar enxergando?
– O que falta ela aprender e como eu posso ajudar?
– O que falta eu aprender para ajudá-la a cuidar mais de mim?
PARTE 2: COMPARTILHAMENTO DAS REFLEXÕES
Partilha das Reflexões
Duração: 20 min; ± 2 min por pessoa.
Depois que foi dado tempo para as pessoas anotarem suas reflexões sobre os 3 passos da atividade anterior, será feita uma rodada de apresentação das respostas. A apresentação é voluntária, mas sugerimos que o facilitador comece para dar o exemplo.
Instruções para o facilitador:
‘Agora vamos compartilhar nossas reflexões. Cada pessoa que quiser compartilhar terá aproximadamente 2 minutos para ler suas respostas para as 3 perguntas. Não é necessário comentar ou explicar muito – apenas ler o que escreveu. Isso nos ajudará a ver diferentes perspectivas sobre a corresponsabilidade.’
Orientações importantes:
- Incentive a participação, mas respeite quem não quiser compartilhar
- Mantenha o tempo de cada apresentação (aproximadamente 2 minutos)
- Após cada apresentação, pode fazer um breve agradecimento ou reconhecimento
- Se houver tempo, pode abrir para comentários ou reflexões coletivas
FUNDAMENTO DA ATIVIDADE
O exercício “Tomar Parte do Problema” é uma das práticas mais profundas da metodologia CNV em Rodas. Ele nos convida a reconhecer que, quando temos conflitos, geralmente também participamos do problema. Não se trata de culpa, mas de reconhecer nossa responsabilidade e capacidade de contribuir para a transformação da situação.
A CNV oferece várias “regrinhas” para manifestar vulnerabilidade e reconhecimento do poder das pessoas conosco: observar (sem avaliar), compartilhar sentimentos (sem culpar), relacioná-los às necessidades (sem confundi-las com estratégias) e fazer pedidos claros (sem impor). Mas focar apenas nas regras pode nos distrair do tipo de pensamento que precisamos cultivar em relação às pessoas.
Este exercício nos revela que CNV é estar com o outro – no problema, no conflito, na restauração e nas soluções. Para exercitar essa consciência, precisamos refletir sobre como fazemos parte do problema.
A transformação da linguagem de culpa em responsabilidade
Este exercício promove uma transformação poderosa na linguagem. Em vez de “Minha necessidade de respeito não é atendida” (que sugere que o outro não nos respeita), podemos dizer: “Reconheço que ainda não encontrei uma forma de te ajudar a ter mais clareza sobre como desejo que você aja e fale comigo para eu saber que estou sendo respeitado na relação”.
Nesta nova abordagem, reconhecemos que, se desejamos respeito, precisamos auxiliar o outro a nos respeitar, indicando como queremos que ele interaja conosco. Quando percebemos alguém agindo “na defensiva”, por exemplo, em vez de achar injusto, nos perguntamos: “De que forma posso deixar mais claro que me importo com ele e que minhas atitudes também considerarão suas necessidades?”
Ou ainda, se suspeitamos que alguém está escondendo algo, podemos refletir: “Como posso ajudá-la a perceber que estará segura se me falar a verdade e que não deixarei de valorizá-la se ela for verdadeira comigo?”
A humildade como competência fundamental
Uma das principais aprendizagens desta roda é o desenvolvimento da humildade como competência fundamental da CNV. Esta humildade não é humilhação, mas o reconhecimento de que somos afetados pelas situações e que, para que o outro corresponda a nós, precisamos nos expor sem ser violentos.
Precisamos ser vulneráveis, porque a violência não promove educação. No máximo, promove defesa ou coerção que temporariamente pode corresponder às nossas expectativas, mas não será sustentável no longo prazo e não virá com a motivação e energia que desejamos. Pior ainda: provavelmente fará com que a pessoa comece a nos esconder coisas no futuro, pois ela perceberá que não conseguimos tolerar sua imperfeição.
É um desafio. Precisamos vivenciar nossa vulnerabilidade para acolher a imperfeição do outro e também reconhecer nossas imperfeições para criar relações de confiança e evitar o uso de recursos violentos para conseguir o que queremos.
A corresponsabilidade como prática transformadora
O exercício mais desafiador de empatia é reconhecer nossa própria impotência. Quando estou com raiva do outro, preciso encontrar uma impotência complementar minha – é quando tomo parte no problema com o outro.
Na roda anterior, exercitamos ser parte da solução: “O que a sociedade pode oferecer para essa pessoa? O que eu posso oferecer para que ela aja de forma mais sustentável?” Agora, queremos reconhecer que participamos do problema com a pessoa.
Se ela ainda tem dificuldades, ela precisa de educação, espaço para aflorar e desenvolver competências, suporte para crescer e segurança emocional – algo mais sutil e difícil de concretizar, mas essencial para seu desenvolvimento.
Em todas essas situações, percebemos que estamos com as pessoas nos problemas. E quando fazemos esse exercício, respiramos e percebemos: Culpar o outro não resolve.
A diferença entre parar de culpar e se conformar
É fundamental esclarecer que parar de culpar as pessoas não significa se conformar, concordar ou se submeter ao que ela quer. Parar de culpar significa não desumanizá-las mais, não “monstrualizá-las”. Simplesmente perceber que há um ser humano ali.
Às vezes, ao perceber que há um ser humano ali e ver todas as condições necessárias para que ele floresça em suas competências e respeito, posso concluir que não tenho estrutura no momento para dar esse suporte. Posso me afastar ou deixar que a pessoa resolva o problema sozinha.
Posso também perceber que, se quero que ela melhore e quero manter a relação, preciso ajudá-la – porque reclamar não resolve.
O leque de escolhas para além do reclamar e culpar é muito amplo. Mas requer que me responsabilize com o outro, o que pode trazer uma espécie de luto: perceber que ainda não conseguimos ajudar essa pessoa a florescer como gostaríamos, a desenvolver as competências que consideramos preciosas e importantes para nossa relação.
Esta prática nos desenvolve a consciência de que todos dependemos uns dos outros para nos tornarmos pessoas melhores. Quando alguém se comporta de forma que nos incomoda, isso pode indicar que suas necessidades não estão sendo atendidas adequadamente. Como membros de uma sociedade, temos a oportunidade de criar condições para que todos possam atender suas necessidades de forma saudável.
Uma das principais aprendizagens desta roda é a transformação da culpabilização em compaixão. Em vez de culpar os outros por seus comportamentos, somos convidados a reconhecer nossa interdependência e pensar em como mudar, enquanto sociedade, para que as pessoas tenham mais apoio para atenderem suas necessidades de um modo equilibrado e sustentável, sem prejuízos para o coletivo.
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