Por que as crianças mentem e como a Comunicação Não Violenta pode ajudar?

Neste vídeo, eu falo sobre por que as crianças mentem. Quais necessidades podem estar por trás da mentira? Quais as possíveis causas da mentira e como usar a CNV para lidar com isso?

A seguir, a transcrição do que falei, com alguns detalhes a mais:

O que fazer e se o nosso filho está mentindo para nós?

Eu recebi essa pergunta ontem e um workshop sobre justiça restaurativa e eu decidi parar esse vídeo para dizer como eu acho que a CNV poderia apoiar essa pessoa.

Qual a causa da mentira?

Então, primeiro comecei dizendo que, se alguém está mentindo, provavelmente, essa pessoa tem uma necessidade de proteção. Quando a gente mente, normalmente, é porque a gente está evitando o sofrimento.

A gente mente, porque a verdade seria dolorosa.

Se a gente falasse aquilo que acontece ou o que aconteceu, talvez a gente não fosse acolhido… talvez a outra pessoa nos julgasse… talvez ela tentasse nos punir!

E eu acredito que, quando um filho mente para nós, ele pode estar passando por essa mesma situação.

Então, eu perguntei pra essa pessoa:

Como você ajuda a sua filha a lidar com as falhas dela?

A importância de saber acolher as falhas

Logo, percebi que se eu quero ajudar um pai ou uma mãe a acolher o filho, quando ele não consegue ser perfeito, quando ele falha… para que ele sinta confiança de que ele pode ser sincero, quando ele fizer alguma coisa que prejudique a ele ou aos outros, eu percebi que, se eu quero ajudar o pai ou a mãe nisso, eu preciso entender como esse pai essa mãe lidam com eles mesmos, quanto eles são menos que perfeitos. Quando eles falham.

Então, eu gostaria de perguntar pra vocês: pais, mães…

Como vocês falam com vocês mesmos, quando vocês fazem alguma coisa que vocês percebem que não foi boa?

Pensem em uma situação que vocês fizeram alguma coisa que realmente não foi legal e vocês perceberam isso. E como vocês provavelmente iriam reagir a isso?

E se a maneira como vocês conversam consigo mesmos for algo como:

Ah! como eu sou idiota…
Eu realmente sou muito burro!
De novo eu, fazendo isso… não acredito!

A autoempatia é a base

Enfim… Se, quando vocês falham, vocês mesmos não conseguem se acolher, vai ser muito difícil e você acolher o seu filho.

Então, se falta a autoempatia na relação com vocês mesmos, vai ser muito difícil dessa criança confiar de que ela pode falhar e que ela vai continuar sendo amada.

Porque, talvez, vocês não estejam conseguindo dar esse suporte para vocês mesmos.

Eu não estou dizendo, aqui, que a gente não tem que buscar melhorar. Eu não estou dizendo aqui que a gente precisa fingir que as nossas falhas não são importantes.

Mas, existem maneiras diferentes de reconhecer que nós falhamos. A gente pode ficar com raiva, a gente pode nos olhar por isso. Ou a gente pode enlutar. Então, quando a gente falha, nós podemos lidar com isso de duas formas, basicamente. Talvez três!

Três formas de lidarmos com nossas falhas

Uma delas seria ficar com raiva:

Nos enxergar como uma ameaça à nossa felicidade, ao nosso bem-estar, e romper essa conexão conosco, tentando interagir com a gente com violência.

Nos chamando de “estúpidos”, nos chamando de “idiotas”, procurando meios de nos punir por isso.

Talvez, uma outra maneira seja ignorar. Mas, isso, definitivamente, não vai resolver. Então, eu vou considerar que essa segunda maneira vocês já perceberam que não vai adiantar.

E a terceira maneira, que é a proposta pela CNV da gente lidar com as nossas falhas, é através do luto. Através dessa consciência de que uma necessidade importante nossa foi ferida e que isso nos afeta. Nós
Adoraríamos ter tido um resultado diferente.

Isso é triste! Porque, algo importante que nós gostaríamos não aconteceu.

A base das relações de confiança

A interconfiança depende de acolhimento,
cuja a base é o autoacolhimento.

Então, a base para que a gente consiga apoiar os nossos filhos, quando eles são menos do que perfeito é ajudando eles a se sentir seguros de que, se eles falarem a verdade pra gente, nós não vamos tentar puní-los. Nós não iremos oprimí-los. Não iremos culpá-los.

Como estimular uma mudança de comportamento sem usar de punições e ameças?

Mas, nós temos interesse, sim, de ajudá-los a mudar esse comportamento! Porém, nós queremos fazer isso celebrando a perda e não reprimindo a perda. Nós queremos mostrar que nós nos importamos com o que aconteceu. Que aquilo nos afeta. Que aquilo é importante.

Não como um modo de fazê-los se sentirem culpados por nossos sentimentos, mas como uma forma de elaborarmos a perda: de nos trazer à consciência aquilo que foi ferido. E nós fazemos isso com uma linguagem baseada em necessidades.

Então, se um filho mente para nós e nós queremos que ele seja sincero, nós vamos falar sobre o quanto nós gostaríamos de ter essa sinceridade; o quanto nós gostaríamos de poder tem essa relação de confiança; o quanto nós gostaríamos que ele se sentisse seguro para poder compartilhar conosco o que ele está vivenciando.

Então, a gente oferece para essa pessoa aquilo que é importante para nós… esses valores que são importantes e, da mesma forma, quando a gente aborda essa criança, que está nos mentindo, nós vamos fazer isso, tentando fazer empatia com ela.

Por exemplo, a gente pode perguntar:

Filho, o que você me falou é diferente do que eu descobri.
E me ocorreu que, talvez, tu estejas preocupado, que se tu me falar algo…
que isso possa colocar em risco a tua necessidade de ser amado, ser respeitado, de ser acolhido. Então, talvez tenha escolhido me falar algo diferente para poder garantir que eu vou continuar tratando tu com esse cuidado e com esse respeito.
Eu gostaria de saber se é isso que está sentindo,
É isso que está acontecendo contigo?

Aperfeiçoamento progressivo

Você deve estar percebendo que isso não é uma coisa simples. Isso envolve várias competências! E que não vai ser em um texto que tudo vai ser resolvido.

Acima de tudo a comunicação não violenta é uma coisa que a gente aprende ir praticando… é uma coisa que a gente constrói nas relações, nos conflitos. E a gente vai aprimorando. Então, a gente precisa ir investigando e aperfeiçoando. A gente não vai ter uma resposta pronta.

Conclusão

Mas, hoje eu acho que a melhor maneira para a gente a apoiar alguém está mentindo é aprendendo ajudar essa pessoa a lidar com as falhas. Mas, se a gente não consegue lidar com as nossas falhas, a gente precisa primeiro aprender e isso.

Convite

Bom, esse foi o primeiro vídeo dessa série em que a gente vai ver como usar a CNV para lidar com conflitos eu convido vocês a comentar e compartilhar, enfim, se achar interessante esse conteúdo.

Eu adoraria saber o que vocês pensam a respeito desse tema e se vocês têm outras sugestões de vídeos e conflitos para a gente tentar analisar à luz da CNV.

Veja mais sobre como exercer o papel de autoridade usando a CNV aqui.

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